Em Damasco, faltam produtos e turistas e aparecem checkpoints onde desaparecem pessoas. Em Aleppo, a classe média começa a revoltar-se. A generalização da violência é uma realidade e quem pode foge do país
Homs é nome de cidade em guerra, não há dúvidas. Só na última semana, centenas de pessoas foram mortas por raides do Governo. De um lado, opositores que começaram por ser civis em manifestações pacíficas até que foram obrigados a defender-se de tanques com Kalashnikovs. Do outro, um Presidente disposto a tudo, um regime que acredita poder sobreviver, por mais que tenha de matar.
Bashar al-Assad tem cada vez menos aliados. Mas ainda tem o Irão, o Iraque, o Líbano e a Rússia. Na Síria, segundo analistas, tem o Exército; os alauitas; as mesquitas; os media e os empresários; e mantém Damasco e Aleppo, a capital e a segunda cidade mais importante. Mas a Síria não é um país dividido entre a guerra e a normalidade - é um país onde a guerra se vive minuto a minuto, em cidades como Homs, ou se pressente como inevitável no souq de Damasco ou nas muralhas da Cidade Velha de Aleppo.
"Damasco mudou completamente. Eu não sou anti-Assad. Quero viver em paz com os meus filhos e a minha mulher. Mas pela primeira vez sinto que o Presidente vai cair", diz Sharif, um habitante da capital citado por Anthony Shadid no New York Times.
Para falar da Síria, Shadid recorda o Iraque de 2006, quando se debatia se devia ou não falar-se de guerra civil. E conclui: "Esta discussão muitas vezes disfarça as verdadeiras forças envolvidas - um regime empenhado em explorar as divisões da sociedade, uma oposição incapaz até agora de fornecer uma alternativa, e disputas cada vez mais profundas que atraem não só o Governo e os desertores, mas também criminosos. Havendo ou não guerra civil, muitos temem que estas forças destrocem a sociedade, provocando divisões que podem levar anos, até gerações, a reconciliar."
Damasco, cenário das primeiras e pequenas manifestações, há um ano, antes da verdadeira revolta rebentar a 15 de Março em Deraa, junto à fronteira jordana, já há muito deixou de ser uma capital normal. Nas últimas semanas, os confrontos entre o Exército e os desertores armados chegaram mesmo a vários subúrbios da cidade.
Um jornalista da BBC contou como foi levado do centro até um descampado onde cem pessoas cantaram contra o regime durante uma hora, até dispersar. Outro, da Reuters, escreve que uma mulher se aproximou dele num bairro de Damasco para lhe dizer: "Ele não é o meu Presidente, nunca foi. Mas antes não o podia dizer."
Na capital, os hotéis de luxo e os restaurantes estão quase vazios. Os únicos turistas visíveis são os peregrinos iranianos. As consequências das sanções começam a fazer-se sentir, os produtos importados deixaram de chegar e os preços subiram em flecha.
Em histórias a fazer lembrar Bagdad dividida entre árabes sunitas e xiitas, começam a chegar relatos de pessoas levadas em checkpoints no meio de Damasco. Quando os familiares as procuram, descobrem que as forças de segurança não ergueram checkpoints nesses locais e ninguém sabe quem o fez. Milícias do regime, dissidentes ou criminosos a aproveitar o caos.
Aleppo ainda é apresentada como imune à revolta, mas a realidade é diferente. "As manifestações agora são frequentes fora das muralhas da Cidade Velha", contou à Reuters uma professora. "Não há gasolina nem óleo para os aquecimentos e o descontentamento está a espalhar-se. Antes só ouvíamos falar de protestos na universidade ou em bairros pobres, agora a classe média começou a mexer-se."
O último sinal da generalização da violência chegou precisamente de Aleppo, que acordou sexta-feira com uma explosão junto a edifícios do Exército. Pelo menos 28 pessoas morreram. O Governo acusou "grupos terroristas"; a oposição fala num ataque do regime destinado a desacreditá-la.



