EUA alargaram espionagem a líderes estrangeiros

28.11.2010 - 18:48 Por Clara Barata, João Manuel Rocha, Sofia Lorena
Os Estados Unidos pediram aos seus diplomatas para intensificarem a recolha de informações sobre dirigentes estrangeiros e ordenaram ao pessoal do Departamento de Estado para obter dados dos cartões de crédito, voos, horários de trabalho e outras informações pessoais.
As informações constam dos documentos hoje divulgados por jornais internacionais que os receberam do site Wikileaks.
Entre as revelações estão a indicação de que os EUA mandaram espiar o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, e os representantes dos outros membros permanentes do Conselho de Segurança – França, Reino Unido, China e Rússia.
É também dito que Washington vigia de perto a agenda islamista do primeiro-ministro turco, Recep Erdogan, e que os países árabes pediram a Washington para travar o programa nuclear iraniano por qualquer meio.
Em 2007, quando se aproximavam as eleições legislativas na Turquia, a embaixada dos EUA quis saber se Erdogan teria uma “agenda islamista oculta”. Já em 2009, um diplomata garante que os seus “contactos” desmentem a tese de que a Turquia corre o risco de se converter numa república islâmica.
O programa nuclear iraniano é outro tema quente das 65 mil comunicações comunicações entre embaixadas norte-americanas e o Departamento de Estado hoje divulgadas. Pelo menos das divulgadas hoje: nos próximos dias, o "New York Times", o "Guardian", o "Le Monde", o "El País" e o" Der Spiegel" vão continuar a publicar artigos com base nos cerca de 251 mil documentos a que o Wikileaks teve acesso, com o enfoque noutros temas, como por exemplo a Coreia do Norte.
Bombardeiem o Irão
Através dos documentos diplomáticos norte-americanos fica-se a saber que a Arábia Saudita terá pedido a Washington para bombardear as instalações nucleares do Irão. Outro documento fala da disposição do Reino Saudita de fornecer petróleo à China se esta potência apoiasse sanções reforçadas contra Teerão - algo que sempre negado, a nível oficial. Outras monarquias do Golfo incentivaram igualmente os EUA a bombardear as instalações nucleares iranianas.
“O rei [Abdullah] disse ao general [James] Jones [conselheiro da Segurança Nacional] que se o Irão conseguir desenvolver armas nucleares, todos na região farão o mesmo, incluindo a Arábia Saudita”, escreveu o embaixador dos EUA em Riad, James Smith, numa missiva dirigida à secretária de Estado Hillary Clinton, que preparava a sua visita à Arábia Saudita em Fevereiro deste ano.
Várias vezes Abdullah convidou os americanos a “contar a cabeça da serpente”. “Não se pode confiar nos iranianos”, observou o rei Abdallah da Arábia Saudita em Março de 2009, frente a John Brennan, conselheiro da Casa Branca para a luta contra o terrorismo. “O objectivo do Irão é causar problemas, que Deus nos preserve dos seus pecados”, lê-se num relatório que cita o rei saudita, obtido pelo Wikileaks e examinado pelos jornalistas do “Le Monde”.
O mesmo aviso fez o príncipe herdeiro do Abu Dhabi, o xeque Mohammed Bin Zayed el Nahayan, ao secretário do Tesouro, Timothy Geithner, durante um jantar de Julho do ano passado.
O rei do Bahrein apelou também a bombardeamentos norte-americanos, tal como o emir do Qatar. O Presidente do Egipto, Hosni Mubarak, “tem um ódio visceral pela República Islâmica”, diz um diplomata americano no Cairo, em Fevereiro de 2009. “Chama-lhes mentirosos. Na Jordânia, em Abril de 2009, diz-se que “a metáfora mais usada para falar do Irão é a de um polvo estendendo os seus tentáculos, que devem ser cortados”.
Há também acusações de que o Irão abusou do estatuto de neutralidade do Crescente Vermelho iraniano para infiltrar agentes dos Guardas da Revolução e armas noutros países, nomeadamente no Líbano, durante a guerra em 2006 com Israel, e também no Iraque.
Os documentos – 251. 287 mensagens que cobrem um período até Fevereiro de 2010 e que na sua maioria abarcam os últimos dois danos – provam a intensa actividade dos Estados Unidos para bloquear o Irão, o enorme jogo que se desenrola em redor da China e os esforços para cortejar países da América Latina e isolar o Presidente da Venezuela, Hugo Chávez.


