No final de uma crise política de 535 dias - um recorde mundial - a Bélgica vai finalmente ter um novo governo em pleno exercício que, pela primeira vez em 37 anos, será dirigido por um francófono, Elio di Rupo.
Os seis partidos flamengos e francófonos que estavam em negociações desde Agosto chegaram a acordo ontem à noite sobre a formação de um Executivo belga.
Os representantes dos seis partidos em negociações (socialistas, liberais e democratas cristãos das duas grandes comunidades do país - flamengos e francófonos) chegaram a acordo sobre os últimos pontos em discussão neste pacto: o próximo primeiro-ministro será o líder socialista francófono Elio Di Rupo, o que supõe que um francófono será o chefe do governo belga pela primeira vez desde 1974.
Di Rupo, de 60 anos e filho de imigrantes italianos, abandonou ontem à noite o edifício onde decorriam as negociações com um sorriso mas sem prestar declarações.
Os seis partidos passarão o dia de hoje relendo o conteúdo do que foi acordado - cerca de 185 páginas -, findo o qual é esperada a “luz verde” definitiva para que o governo possa tomar posse na próxima segunda-feira.
Está, porém, por determinar a composição do governo. Os partidos flamengos - cuja comunidade é maioritária na Bélgica - já fizeram saber claramente que não veria com bons olhos que houvesse mais ministros da minoria francófona que da maioria flamenga no novo governo.
Após a tomada de posse, Di Rupo deveria apresentar o seu governo e o seu programa ao Parlamento, um trâmite que requer dois dias, pelo que o novo Executivo poderá estar em marcha a partir de quarta-feira, aproximadamente, calcula a EFE.
O principal obstáculo ao acordo selado ontem já tinha sido superado no sábado, com um acerto sobre o orçamento federal para os próximos três anos destinado a alcançar o equilíbrio fiscal em 2015.
Hoje a Bélgica vive uma jornada de contestação social, depois das três principais centrais sindicais terem convocado um megaprotesto para Bruxelas contra as medidas de austeridade.
Uma crise com quase dois anos
A crise política belga começou em Abril de 2010, quando a coligação governamental se desfez por causa de divergências sobre o distrito eleitoral e judicial Bruxelas-Halle-Vilvoorde (BHV), que agrupa a cidade de Bruxelas (oficialmente bilingue mas com uma maioria francófona) e os municípios flamengos da sua periferia (com uma importante minoria francófona).
As eleições de Junho de 2010 não resolveram a questão, já que o vencedor do escrutínio foi o partido nacionalista flamengo N-VA, partidário de uma transição soberana progressiva em direcção à independência da Flandres (grosso modo, a metade norte do país).
Durante praticamente um ano, o líder do N-VA - o polémico Bart De Wever - colocou entraves de todo o tipo às negociações com vista à formação de governo. Finalmente, em Maio de 2011, o rei Alberto II entregou a Di Rupo a responsabilidade de formar um governo de coligação. O acordo final sobre todos os pontos tardou até agora a ser aprovado.



