Longe vai o tempo em que puxar o lustro ao sapato era habitual nas ruas lisboetas. Os típicos engraxadores, que ilustram a memória de quem conhece há muito a capital, são cada vez menos. Mas há quem queira revisitar a tradição, entre formar novos engraxadores e dignificar o ofício, o projecto “Tradição – Engraxadores” pretende recuperar a riqueza de um legado nacional.
Paulo Parreira tem 20 anos e está desempregado há dois. Soube do projecto pela Associação CAIS, parceira da iniciativa, e foi aprender a engraxar. Ele e mais nove homens, antes desempregados, estão agora em postos espalhados por várias zonas de Lisboa. São estes os contornos do projecto, lançado pela Santa Casa de Misericórdia de Lisboa (SCML), também em parceria com o IADE – Creative University e o ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa. E a escolha de reabilitação desta profissão não é por acaso. Ao seu estatuto icónico junta-se, diz Henrique Pinto, director executivo da CAIS, a capacidade que tem de “oferecer aos seus trabalhadores uma razoável sustentabilidade”. Não garante apenas o “sobreviver”, reforça, mas também o “viver”. Uma visão partilhada por António Charana, director do Departamento de Empreendedorismo e Economia Social da SCML, que realçou a necessidade de dar “mais valor” aos engraxadores.
A somar à certificação profissional, ao manual de conduta e à atribuição de um local estratégico para montar o negócio, quem participa no projecto recebe uma caixa de engraxador com um design inovador desenvolvido pelos alunos do IADE. O modelo, distribuído pelos 14 mestres e aprendizes abrangidos por esta iniciativa, segue o espírito de revivalismo histórico de inícios e meados do século XX.
Uma época familiar a Manuel Duarte. Com 68 anos, o “rei do brilho” engraxa sapatos desde os oito. A alcunha deu-lha um cliente e o amor à profissão foi crescendo com o tempo. Na altura em que o dinheiro em casa faltava e Manuel era ainda criança, foi por iniciativa própria que foi para a rua trabalhar. “Arranjei uma caixa de sabão e fiz uma caixa de engraxar sapatos”, recorda o mestre engraxador, lembrando que a actividade não lhe dava muito dinheiro, “mas sempre era uma ajuda.” Décadas passadas, Manuel identifica três requisitos exigidos pelo ofício – “educação, limpeza e trabalho bem feito”, atesta.
António Pina, também mestre engraxador, trabalha há menos tempo no negócio, “uns cinco, seis anos”, mas concorda com Manuel no que diz respeito às exigências do trabalho. Diz que “a postura, a honestidade e a educação podem mudar a visão que algumas pessoas têm do engraxador”. António acredita que a profissão merecia um projecto destes, que adaptasse a tradição à “realidade actual”. E, mais importante, que combatesse o estigma social que considera muitas vezes estar associado. “Quem engraxa sapatos não tem de ser necessariamente uma analfabeto, uma pessoa com vícios, sem eira nem beira”, afirma, “é um profissional”. O engraxador de 51 anos orgulha-se por mudar a opinião de algumas pessoas, que “entram na minha caixa com uma visão e saem com outra.”
Segundo o estudo sobre a profissão desenvolvido pelo ISCTE no âmbito do projecto “Tradição – Engraxadores”, a percepção que impera entre os clientes dos engraxadores é a de uma figura amigável e de confiança. Mas a questão do estigma social é mais do que uma opinião comum entre os trabalhadores do ramo. De acordo com o mesmo estudo, que conta com relatos de engraxadores e clientes e pesquisa administrativa, o ofício é mesmo associado a problemas de toxicodependência e alcoolismo. A fragilidade social dos engraxadores, avança o estudo, é até uma das maiores ameaças à profissão. Também a iliteracia, a baixa auto-estima e a situação fiscal dúbia afectam o estatuto de quem engraxa sapatos para viver.
Daí que António Charana afirme não bastar “trabalhar no charme desta figura” com este projecto. O que é essencial combater, afirma o representante da SCML, é o “estereótipo associado à profissão”, melhorando a situação económica e social dos engraxadores.


