Jacques Delors critica acção tardia dos responsáveis europeus e gestão da moeda única

03.12.2011 - 11:18 Por Romana Borja-Santos
Perante a crise da dívida e as dificuldades manifestadas por alguns países, os responsáveis europeus agiram “muito pouco e demasiado tarde”. As críticas foram feitas por Jacques Delors, antigo presidente da Comissão Europeia, em entrevista ao Daily Telegraph.
Delors, que foi um dos principais “arquitectos” da ideia da moeda única, mostrou-se também descontente com os actuais problemas vividos pelo euro, considerando que são a consequência de “uma combinação entre a obstinação da visão alemã do controlo monetário e da ausência de visão clara por parte dos outros países”.
O antigo presidente da Comissão Europeia salientou, depois, a ironia de a Alemanha, perante o agravamento da crise económica e financeira, ter de rever a sua posição: “Os mercados são os mercados. E de agora em diante vão ser minados pela incerteza”, afirmou, em referência ao facto de a chanceler alemã, Angela Merkel, ter manifestado esta sexta-feira intenção de alterar os tratados europeus para reformar a zona euro no sentido de criar uma verdadeira união orçamental.
A chanceler Angela Merkel disse, no Parlamento alemão, que a Europa está prestes a criar uma união orçamental, depois de na quinta-feira ter discutido com o Presidente francês formas de “refundar” a Europa. “Não estamos apenas a falar sobre uma união orçamental, estamos prestes a realizá-la”, garantiu a governante, acrescentando que serão necessárias “regras rígidas, pelo menos para a zona euro”. Esta será a posição que o seu Governo vai defender na Cimeira da EU da próxima semana, considerada “crítica” pelo presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker.
Angela Merkel e o Presidente francês, Nicolas Sarkozy, têm pressionado a Europa no sentido de se introduzirem alterações às actuais normas europeias, de modo a evitar o colapso da zona euro e têm um plano que pretendem apresentar na Cimeira de Bruxelas, agendada para 8 e 9 de Dezembro.
No que diz respeito aos britânicos, Jacques Delors salientou que, apesar de não fazerem parte da moeda única, também estão a ser afectados por esta crise e a sofrer as consequências na acção tardia por parte dos responsáveis europeus, acrescentando que a criação dos eurobonds seria uma “grande preocupação” para os ingleses.
Delors, recuando um pouco mais no tempo, afirma que a actual crise foi gerada por falhas de execução por parte dos responsáveis políticos que supervisionaram os primeiros passos da moeda única, já que viraram costas às dificuldades e desequilíbrios que foram sendo conhecidos. “Os ministros das Finanças não quiseram ver nada que fosse desagradável e que tivessem sido obrigados a gerir”, insistiu, ao mesmo jornal, o também antigo ministro francês da Economia, que desempenhou o cargo entre 1981 e 1984. O antigo presidente da Comissão Europeia, órgão que liderou de 1985 a 1995, reconheceu, no entanto, que os britânicos estavam certos quando disseram que uma moeda única e um banco central sem Estado seriam instáveis.

