Três cientistas recebem prémio que as ajudará a saber mais sobre cancro, obesidade, diabetes e hipertensão

23.11.2009 - 09:32 Por Andrea Cunha Freitas
Desde o desenvolvimento de estratégias para combater possíveis aliados do processo de metastização de um cancro até à pesquisa de formas de impedir que as células que acumulam gordura cresçam e se multipliquem, passando pelo estudo de um pequeno órgão que parece funcionar como um sensor de insulina capaz de desencadear doenças como hipertensão e diabetes do tipo II.
Estas são as propostas de trabalho que partiram de investigadoras que vão receber hoje, na Academia de Ciências de Lisboa, um estímulo de milhares de euros com a atribuição das Medalhas de Honra L"Oréal Portugal para as Mulheres na Ciência.
O prémio que distingue mulheres doutoradas com menos de 35 anos e que desenvolvam os seus projectos em Portugal é uma parceria da L"Oréal Portugal, Fundação Nacional da UNESCO e Fundação para a Ciência e Tecnologia. O júri, presidido pelo investigador Alexandre Quintanilha, avaliou cerca de 40 candidaturas. Maria José Oliveira, de 35 anos; Joana Rosmaninho Salgado, de 28 anos; e Sílvia Vilares Conde, de 32 anos, foram as três cientistas escolhidas.
Maria José Oliveira: Os aliados do cancro
A investigadora do Instituto de Engenharia Biomédica (INEB), no Porto, vai dedicar-se ao estudo do papel das células do sistema imune (macrófagos) no processo de metastização deum cancro. Durante os próximos três anos, num trabalho em parceria com o Ipatimup (Instituto de Patologia e Imunologia da Universidade do Porto), a cientista vai perseguir os macrófagos para perceber como é que estes se tornam aliados de um tumor, ajudando-o a espalhar-se para outros órgãos do corpo. A investigação vai recorrer a amostras humanas e espera-se muito trabalho in vitro no laboratório que deverá servir para validar as amostras dos doentes. O material humano será submetido a um processo de descelularização que visa retirar todas as células do tecido para ficar apenas com a matriz. Ou seja, em vez das matrizes animais (de ratinhos), este estudo vai usar matrizes humanas da área do cancro e de zonas vizinhas ao tumor. Desta forma, refere Maria José Oliveira, pretende-se olhar para tudo, desde a célula tumoral às células vizinhas, à matriz. E, claro, olhar também para o potencialmente facilitador do processo de metastização que os macrófagos representam no cancro do estômago e do cólon, tendo sido provado em estudos anteriores que são de facto "aliados" das metástases no cancro da mama. Para desenhar novas estratégias terapêuticas, o objectivo é tentar modelar a população de macrófagos (que inclui células amigas do cancro, pró-tumorais, e inimigas, as antitumorais) e tentar atacar os "maus" e aumentar os "bons", bloqueando esta "amizade" com as metástases.
Joana Salgado: Controlar os adipócitos
Joana Salgado, do Centro de Neurociências e Biologia Molecular da Universidade de Coimbra, é mais uma das guerreiras na batalha contra a obesidade, uma doença que afectará mais de um bilião de pessoas no mundo. E nada como conhecer melhor o "inimigo" para o combater. Assim, a investigadora vai tentar conhecer melhor o funcionamento das células que acumulam gordura (os adipócitos) e testar novas estratégias para impedir que aumentem, em número e tamanho
Mais do que prevenir um mecanismo, Joana Salgado vai mesmo tentar ver se é possível destruir o que já existe nestas células. A investigadora vai engordar ratinhos em laboratório para depois tentar impedir o aumento do volume de massa do tecido adiposo e também tentar travar a formação de novos vasos no tecido. Segundo explicou, pretende-se tentar perceber se os adipócitos gostam mais de um ambiente com novos vasos sanguíneos ou menos. Se gostam, há que encontrar formas de tentar impedir a sua formação. Joana Salgado recorre neste projecto a um fármaco usado para o controlo da diabetes II, em associação com outros medicamentos e que será explorado agora no campo da formação do tecido adiposo.
Sílvia Conde: O sensor de insulina

