Fosse e Verdon, o casal que marcou a dança do século XX

Depois do Emmy e do Globo para Michelle Williams, Fosse/Verdon, a minissérie do FX sobre a relação entre a dançarina e estrela da Broadway Gwen Verdon e o coreógrafo, encenador e realizador Bob Fosse, chega finalmente a Portugal via HBO Portugal.

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Sam Rockwell é Bob Fosse e Michelle Williams é Gwen Verdon em Fosse/Verdon, a minissérie sobre o lendário casal dos musicais DR

O nome de Gwen Verdon não aparece em lado algum nos créditos de Cabaret, a adaptação do musical da Broadway que Bob Fosse realizou em 1972. Mas a actriz e dançarina, uma das maiores lendas de sempre da Broadway que na altura era casada com o realizador, encenador e coreógrafo, terá contribuído muito para o resultado final, com ideias e a elevar o que, apenas nas mãos de Fosse, por muitas aspirações artísticas e cinéfilas que este tivesse, ainda não era o filme clássico com Liza Minnelli e Michael York. O primeiro episódio de Fosse/Verdon, a série do FX em que Michelle Williams é Verdon e Sam Rockwell Fosse, tenta repor a justiça quanto a essa situação, perfurando o mito do génio masculino.

A minissérie, criada por dois nomes grandes da Broadway, Steven Levenson, que escreveu o musical Dear Evan Hansen, e Thomas Kail, encenador de In the Heights e Hamilton, os musicais de Lin-Manuel Miranda (que aqui é produtor executivo), estreou-se em Abril do ano passado e chega agora a Portugal via HBO Portugal, pouco após Michelle Williams ter ganho um Globo de Ouro pelo seu desempenho. Todos os oito episódios, que mostram a conturbada vida do casal que durou entre 1960 e 1971 e do trabalho pioneiro que desenvolveram juntos, uma colaboração que marcou a dança do século XX, estarão disponíveis de uma só assentada. Num dos episódios, Fosse, a falar com Verdon, resume o trabalho de ambos no mundo dos musicais: “Pegamos no que dói e transformamo-lo numa grande piada e estamos a cantar e a dançar. Eles estão a rir-se tanto que não percebem que tudo aquilo de que se estão a rir é sobre uma pessoa em agonia.” A prestação de Williams na série tem sido amplamente reconhecida, primeiro nos Emmy, em Setembro, e, já este mês, nos Globos de Ouro, com prémios de Melhor Actriz.

Kail realizou também o episódio-piloto, e introduziu uma gramática estilística muito devedora do trabalho de Fosse como realizador, com a edição e as justaposições típicas de filmes como All That Jazz ou Lenny numa narrativa que está recheada de números musicais em viagem pelo tempo. A relação entre ambos é mostrada sem reservas, com toda a sua toxicidade e as tendências mulherengas de Fosse e a forma não muito simpática como tratava as mulheres, que serviram de base para o já mencionado All That Jazz, desde que se conhecem, nos anos 1950, no musical Damn Yankees, até à morte do próprio, em 1987, passando pela encenação e co-escrita de Chicago (que esteve recentemente em cena no Teatro da Trindade) ou pelo fracasso do filme Sweet Charity.

No elenco, nomes como Norbert Leo Butz, Margaret Qualley, Aya Cash, Evan Handler, Paul Reiser, Nate Corddry, Jake Lacy, Peter Scolari ou até o próprio Lin-Manuel Miranda (faz de Roy Scheider, que encarnou a figura de Fosse em All That Jazz, o que lança a questão: estará a tentar comparar-se a Fosse?) fazem de várias figuras da época, que rodearam o casal, como Paddy Chayefsky, Neil Simon, Hal Prince, Liza Minnelli, Shirley MacLaine, Dustin Hoffman, Jerry Orbach, Cy Feuer, George Abbott, Shirley MacLaine, Dustin Hoffman ou Jerry Orbach, bem como alguns amores de Fosse, como Joan McCracken, a sua segunda mulher, e Ann Reinking.

É uma série que não se preocupa muito em explicar tudo. No primeiro episódio, por exemplo, Hal Prince, interpretado por Evan Handler, fala do novo musical de “Steve” (Sondheim), sobre um solteiro e os amigos casados que o tentam convencer a casar-se. Refere-se a Company, mas isso nunca é dito. Não distrai muito: quem sabe, sabe, quem não sabe, ou vai querer saber mais, ou deixa passar.

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