Quem é Julian Assange, o hacker nómada que acabou encurralado numa embaixada?

O activista de 47 anos cresceu a saltitar entre moradas e escolas e a questionar as autoridades. Em 2012, acusações de crimes sexuais atiraram-no para o exílio na embaixada do Equador em Londres. Foi detido esta quinta-feira. Agora, o seu futuro é incerto.

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Julian Assange estava sob asilo para evitar a deportação para os EUA Reuters/HANNAH MCKAY

Há quase sete anos que o número 3 de Hans Crescent, uma rua do luxuoso bairro de Knightsbridge, em Londres, era a morada de Julian Assange. Deixou de ser esta quinta-feira, quando o activista foi detido pelas autoridades britânicas. Descrito como “intenso” e “altamente inteligente”, o fundador da Wikileaks cresceu no meio de uma vida nómada. Estava fechado na embaixada do Equador desde Junho de 2012. 

A figura de Assange é distintiva. De pele pálida e cabelos brancos, tomou o apelido do padrasto: Richard Brett Assange. O pai biológico, John Shipton, separou-se da mãe ainda antes de Julian nascer — só o conheceria quando o activista completou 25 anos.

Os primeiros anos de vida foram passados na estrada, a acompanhar a mãe, Christine, e o padrasto, que dirigia uma companhia de teatro itinerante. Quando Assange tinha oito anos, o casal separou-se num processo hostil que obrigou a mãe e os seus dois filhos a fugir e a viver escondidos durante cinco anos.

Nesses anos afastado da estrada, Julian Assange cresceu numa velha quinta de produção de ananases, em Horseshoe Bay, numa ilha ao largo que Queensland, na Austrália. “Tinha o meu próprio cavalo e construí a minha jangada. Pescava e descia por minas e túneis”, recordava em entrevista à revista norte-americana New Yorker em 2010. “Era praticamente o Tom Sawyer.”

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Assange fala com jornalistas no exterior da embaixada do Equador em Londres, em 2012 OLIVIA HARRIS/REUTERS

Foi cedo que Assange foi ensinado a questionar a autoridade. A mãe do também jornalista acreditava que a “educação formal” dada nas escolas incutiria um respeito “pouco saudável” pelas forças da lei. Por isso, e também porque até aos 14 anos mudou 37 vezes de escola, Assange estudou em casa, através de cursos por correspondência.

“Passava grande parte do tempo em bibliotecas, de uma prateleira para a outra, à procura dos livros que encontrava nas citações e seguia essa bibliografia”, recordava há nove anos.

Aos 16 anos, a mãe deu-lhe um computador. E foi pouco tempo depois que começou a “hackear” sob o nome de “Mendax” e com um grupo de amigos que se intitulava de “International Subversives” — “subversivos internacionais”, em português. O primeiro encontro com a lei estaria perto. Aos 20 anos, já casado e com um filho, Daniel Assange, Julian viu a polícia federal australiana entrar-lhe pela casa em Melbourne. Teve o seu computador apreendido e foi acusado de mais de duas dezenas de crimes. No entanto, o juiz do caso considerou que Assange ainda era um jovem e que tinha sido movido apenas por um “instinto curioso”. Acabou por pagar apenas uma pequena multa.

O episódio valeu-lhe de lição e “aprendeu a ser mais discreto”, como confessaria anos mais tarde. O nome de Assange só regressaria à ribalta em 2006, quando co-fundou o site de denúncias Wikileaks. 

O projecto ficaria conhecido internacionalmente em 2010, quando o WikiLeaks difundiu um vídeo em que mostrava soldados americanos a disparar contra civis no Iraque, entre outros 500 mil documentos secretos sobre a guerra do Iraque e do Afeganistão. Nesse ano, Assange chegou a estar nomeado para Nobel da Paz. Paradoxalmente, foi a partir daí que a sua vida não voltou a ter tranquilidade. 

Assange deu entrada na embaixada do Equador em Londres em 2012, depois de a justiça britânica ter ditado a sua extradição para a Suécia, onde deveria ter sido interrogado por suspeitas de violação e de outros crimes sexuais cuja autoria sempre negou, alegando que as acusações eram politicamente motivadas. Com Assange longe da Suécia, as acusações acabariam por cair anos depois. Mas não voltou a sair da embaixada até esta quinta-feira, 11 de Abril de 2019.

Enquanto lá esteve, Assange protagonizou vários episódios e manteve-se no centro das atenções. Ainda em 2012, quando fez 41 anos, mandou entregar fatias de bolo de aniversário aos seus apoiantes que protestavam contra a justiça britânica e sueca. E viu ser transmitido o 500.º episódio da série animada Os Simpsons, em que fez de si próprio, gravando as falas por telefone.

Na embaixada, Assange recebeu inúmeras visitas como as artistas musicais M.I.A e Lady Gaga e os actores John Cusack e Pamela Anderson. Mas a sua relação com actores não era inteiramente amigável: Assange pediu a Benedict Cumberbatch para não participar no filme The Fifth Estate, uma produção cinematográfica baseada na história do Wikileaks, onde Cumberbatch acabou por interpetrar o hacker australiano, dizendo que a película era “um ataque massivo de propaganda”.

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Activista solidário com Assange Reuters

Mais importante do que as suas visitas e jantares na embaixada foram as suas intervenções na rede social Twitter através da conta oficial do Wikileaks, onde nos últimos anos acabou por gerar controvérsia e muitas receber críticas pelo apoio prestado à candidatura do actual Presidente norte-americano, Donald Trump. A divulgação de correspondência interna da candidatura da rival democrata Hillary Clinton através do Wikileaks terá sido um dos ingredientes-chave para a vitória do milionário nova-iorquino. “Eu amo o Wikileaks”, chegou a dizer Trump durante um comício.

No entanto, é a mesma Administração Trump que luta agora pela sua extradição para os EUA. Por enquanto, o futuro de Assange é incerto. Sabe-se para já que Washington já enviou a Londres um pedido de extradição relacionado com um crime informático supostamente cometido com Chelsea Manning, fonte de uma enorme quantidade de documentos diplomáticos e militares secretos que foram publicados pelo Wikileaks. 

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